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A vida sobre rodas dos ‘nômades’ atingidos pela crise no Brasil – Notícias

Duas vans, um ônibus escolar e um trailer ocupam uma rua próxima a uma das estações de metrô mais movimentadas de São Paulo. Nela vivem os “nômades” brasileiros, gente que perdeu tudo na crise de 2015 e foi forçada converter o próprio veículo na própria casa.

Ao contrário do que é retratado em “Nomadland”, filme de Chloé Zhao, a grande vencedora do Oscar, quem mora sobre rodas no Brasil não se move entre cidades, mas por bairros de uma mesma cidade, sempre em busca de um lugar seguro onde seja capaz de fazer pequenos trabalhos.

“A gente mora aqui, depois ali, ali. A gente tem que ir embora quando as coisas não vão bem. Às vezes, tem vizinhos que não querem a gente por perto, aí a gente sai”, explica Geraldo Pereira, 60 anos, que mora num caminhão com a mulher.

O veículo passou a ser seu lar quando ele perdeu o emprego de pedreiro, foi abandonado pela então mulher e os filhos se mudaram para outro estado.

Era 2015. O Brasil vivia uma recessão econômica, que se estenderia por mais um ano e mergulharia o país em uma crise sem precedentes, a qual não acabou e agora se agravou com a pandemia do coronavírus.

“Naquela época eu andava pelas ruas empurrando um carrinho, trabalhava com reciclagem. Mas não deu mais certo, resolvi comprar essa kombi vermelha e morar nela, porque me sentia mais seguro”, lembra. 

Pereira vive hoje da venda de frutas em frente ao metrô, mas o surto do coronavírus – e a paralisação de atividades não essenciais – o fez sobreviver principalmente de doações.

Em seu caminhão, ele armazena alimentos, utensílios domésticos, roupas e acessórios necessários para o trabalho, tudo bem organizado em torno de uma cama improvisada cheia de cobertores.

Revela que a vida sobre rodas é um desafio diário, pois os “nômades” têm que lidar com a insegurança, os preconceitos da vizinhança e também com as dificuldades de cozinhar ou tomar banho.

A magnitude desse drama é desconhecida, pois não existem dados sobre pessoas que moram em veículos no Brasil.

Do carro para o motorhome

Vir a morar em uma casa sobre rodas no Brasil, muitas vezes, envolve um tortuoso processo evolutivo que não está ao alcance de todos: primeiro, você mora em um carro; imediatamente em seguida, vai para uma van; depois em um ônibus adaptado e, por fim, no tão almejado motorhome.

Há seis meses, o restaurador Gilmar Braz mora com a mulher, Nilcelia, e seus seis filhos, de 4 a 18 anos, em um trailer, aquisição que ele descreve como “um sonho” que se tornou realidade.

“Agora temos telhado, é mais quente, as crianças ficam mais protegidas e posso sair para trabalhar um pouco mais tranquilo”, diz.

Originário do Paraná, o casal está em São Paulo há décadas e, em meio à crise, o trabalho foi diminuindo à medida que a família crescia.

“No começo, podíamos alugar uma casa, era só eu, minha mulher e um filho. Com o tempo, a família aumentou” e “de repente ou eu pagava o aluguel ou alimentava meus filhos”, lembra.

A família foi dormir na rua, muitas vezes sem comida, em um frio tão intenso que “todos os ossos doíam”, até que ele conseguiu comprar uma barraca e foram morar em uma praça.

“Aos poucos fui trabalhando, economizando até que finalmente consegui comprar um caminhão, depois um ônibus velho e, por fim, o trailer”, conta.

“Já temos um espaço para dormir cada um, a cozinha […] Mas ainda não tem banheiro, temos que usar o do terminal (do metrô) e as crianças tomam banho na casa de um amigo”, acrescentou.

Rotina de humilhações

Entre os moradores dessa rua central de São Paulo estão os que preferem a companhia de animais, como João Andrade Correia, que há dois anos mora em um ônibus com seus 10 cachorros.

Depois de trabalhar grande parte de sua vida no setor de hotelaria e turismo, a situação dele mudou drasticamente em 1990, quando o governo do então presidente, Fernando Collor de Mello (1990-1992), confiscou a poupança, que estava nos bancos, de grande parte da população.

A partir daí, a sua vida complicou-se cada vez mais até que, em 2015, veio a crise e Correia já não conseguia pagar o aluguel, passando a viver num barracão e, posteriormente, numa caminhonete.

Entre doações e reciclagem, ele conseguiu comprar o ônibus onde mora hoje, mas isso não o privou das “humilhações” cotidianas.

“Já sofri e ainda sofro muita humilhação, porque esta cidade de São Paulo é polêmica. Há muito preconceito, racismo e egoísmo”, enfatiza.

“As pessoas te estigmatizam, muitos jogam coisas nos cachorros, provocam, insultam. Essa é a atitude de muitos, eles te tratam como se você fosse propriedade deles. Eles falam ‘vou matar aquele velho’ e é justamente isso: eles vão te matando aos poucos”, finaliza.

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