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Ainda candidato ao título, Flamengo mostra que problema defensivo não é episódico

A dura goleada de 4 a 1 diante do São Paulo não significa que o Flamengo não tem chance de ser campeão brasileiro, tampouco pode ser tratada como um episódio desconectado da trajetória de um time que vinha tendo bons resultados e boas atuações.

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A partida foi um sumário deste Flamengo. Mesmo perdendo em muitos momentos sua habitual organização ofensiva, o time marcou um gol, acertou o travessão, perdeu dois pênaltis… Com a bola, costuma produzir. Mas expôs sua calamidade defensiva, para a qual já se alertara até em vitórias expressivas, como o 5 a 1 diante do Corinthians. A qualidade ofensiva faz do Flamengo candidato ao título. Mas o comprometedor espaço entre suas linhas de marcação não é episódico e torna sem sentido o certo ar de inevitabilidade com que se tratava a chegada do time, em algum momento, à liderança. Não é simples que o Brasileirão seja ganho por um dos dez times que mais permitem finalizações aos rivais.

É possível ler o jogo a partir de suas circunstâncias atípicas: os pênaltis perdidos, os erros individuais, os desfalques pesadíssimos de Arão, Thiago Maia, Arrascaeta, Gabigol, Rodrigo Caio… As ausências, aliás, são atenuantes obrigatórios ao avaliar o jogo. Mas para ter uma perspectiva de futuro, é preciso analisar os erros recorrentes.

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Há momentos em que atacantes e meias se adiantam para pressionar, mas os defensores não acompanham. Em outros, a linha defensiva precisa recuar, mas aí são os meias que não acompanham. Uma descoordenação exposta nos dois primeiros gols do São Paulo, e complementada por falhas individuais, como as de Gustavo Henrique. Há uma questão coletiva, mas antes da condenação sumária do treinador, é preciso avaliar contextos.

Domènec Torrent trabalha em circunstâncias muito diferentes de Jorge Jesus em 2019, quando o Flamengo negava a rivais a chance de respirar — o português teve um período de treinos antes de estrear e semanas livres no percurso. E há o “fator Pablo Mari”. Quando ele chegou, o fato de vir da segunda divisão espanhola foi motivo de menosprezo, até ele se mostrar um líder na condução de uma defesa que jogava adiantada boa parte dos jogos. No início de 2020, Jorge Jesus já exibia preocupação com a dificuldade de adaptação de Gustavo Henrique e Léo Pereira, em tese os substitutos de Mari. O problema já se anunciava. E hoje, o cenário é ainda mais cruel numa temporada em que quase não se treina: Rafinha não está mais, Rodrigo Caio se lesionou e sobrou uma defesa quase toda nova. Resta a Torrent uma corrida contra o tempo, mas é urgente reordenar o Flamengo sem bola.

Ontem, Domènec pareceu preparar o time para um jogo de menos posse e mais bolas esticadas contra uma defesa adiantada e exposta, afinal o São Paulo também tem problemas ao defender. Foi assim que o Flamengo abriu o placar e teve certo controle até perder seu primeiro pênalti. Mas em longas passagens o time paulista foi melhor. Incomodava a saída de bola rubro-negra e, com a bola, seu jogo de aproximações, com o movimento de Igor Gomes e Gabriel Sara juntando-se a Luciano pelo centro, desnorteava a marcação do Flamengo. Além de explorar os fartos espaços entre as linhas rubro-negras com admirável fluência.

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E é curioso que o Flamengo tenha perdido outro pênalti e acertado o travessão num segundo tempo em que se desordenara também com a bola. Tanto que oferecia seguidos contragolpes a um São Paulo que fez o terceiro gol e poderia ter feito mais, embora defendesse mal sua área. Entre virtudes e defeitos de Flamengo e São Paulo, passando pelos elencos curtos de Inter ou Fluminense, pelo recomeço do Palmeiras e pela oscilação do Atlético-MG, temos um campeonato aberto. Se o Flamengo quiser defender seu título, terá que defender melhor.

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