Culinária

Ainda é tempo de cancelar a ceia de Natal – Cozinha Bruta

O Natal de 2020 promete.

Promete ser, ó!, um lixo. Ainda dá tempo de evitar. De cancelar a ceia com a família.

Esta é a época em que a parentada começa a planejar a ceia. A combinar a festa no grupo de zap. A comprar as lembrancinhas para as pessoas queridas.

Para as pessoas não tão queridas assim, é quando você fuça o fundo do armário para separar os presentes que ganhou, não gostou, não abriu, guardou e vai passar adiante.

Pare tudo já.

Se fosse outro ano qualquer, eu iria deitar rabugice sobre as comidas natalinas secas e doces demais. O lombo arenoso, as uvas passas onipresentes, aquele frangão que recebe um nome em cada frigorífico: Lester, Foster, Monster.

Não é um ano qualquer, e nem sei por que gasto tinta do jornal para afirmar isso. Ah, lembrei: porque tem gente que não acredita nisso.

São essas as pessoas que você quer longe. Sempre, mais ainda nas ocasiões festivas.

A categoria contempla a tia que faz o pavê e o tio que faz a piada do pavê. Que se dane o pavê, mas Natal sem esses dois personagens não faz sentido. Com eles, também não.

Natal é época de abraçar. Com a Covid-19 à espreita, não é sensato abraçar. Vou um pouco além: quem você quer abraçar a esta altura do campeonato?

Os Natais começaram a ficar estranhos, como tudo começou a ficar estranho, lá por 2013. A escalada acelerou em 2018.

Aquele foi o Natal do macarrão ao alho e ódio. Da cerveja Drahma. Do bacalhau com batatas e murro. Da torta de climão. As relações familiares azedaram como salpicão esquecido fora da geladeira.

No Natal de 2019, a ceia já estava mutilada. Em muitas famílias, os tios do pavê foram passar as festas com a turma do pavê, lá na Vila Pavê, que fica na casa do pavê.

Outras famílias forçaram o armistício dos parentes –estava decidido, de antemão, que ninguém falaria de política. O tio ficou amuado num canto, e a tia trouxe farofa de ameixas. Os jovens saíram, antes da troca de presentes, para o encontro do pessoal do maracatu.

Ninguém se divertiu. Os sorrisos foram mais falsos do que currículo de autoridade.

Veio o ano da desgraça do Senhor de 2020. A pandemia oficializou o afastamento dos parentes. O que era voluntário virou sanitário.

Os meses de isolamento forçado nos fez perceber que, afinal, não precisávamos ver tanta gente que nem estimamos tanto. A solidão foi se tornando tolerável.

Não sei se há retorno possível para o estágio anterior, só que Natal é Natal. Todo o auê natalino convoca aglomerações. Os anúncios de frangão sugerem uma mesa farta para a família expandida. Não faça.

Os números da pandemia, camuflados de norte a sul pela máquina eleitoral, explodem. A catástrofe de janeiro está logo ali, depois da curva do Papai Noel, marota feito o radar do guarda rodoviário.

Resista à tentação. Lembre-se de que tem clube de bocha e cloroquina na Vila Pavê, mas não tem máscara.

Você não vai morrer por causa de um abraço do tio do pavê, vai?

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