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CH: As vacinas atuais protegem contra essas variantes?

FN: Houve uma queda de proteção dos níveis de anticorpos frente a essas variantes, principalmente a B.1.351. Só que algumas vacinas, como a da AstraZeneca/Oxford, que a Fiocruz vai produzir totalmente nacional nos próximos meses, induzem também uma potente resposta celular. Então, mesmo que haja uma queda na resposta de anticorpos, não necessariamente a vacina perderá a eficiência porque tem outros mecanismos envolvidos na resposta imune. Se o vírus conseguir evoluir de modo que surja uma variante que escape das vacinas, o que ainda não foi detectado, vai ser um problema muito sério. Teremos que dar um passo para trás e readequar as vacinas para inserir uma variante nova que esteja escapando. Os dois trabalhos sobre a Coronavac de que tenho conhecimento mostraram proteção mesmo na presença da P.1. Em relação à AstraZeneca, participamos de um estudo que mostrou que a proteção de anticorpos contra a P.1 ficou intermediária. Não caiu tanto quanto diante da variante B.1.351, mas caiu mais do que em relação à B.1.1.7. Mas a P.1 continua evoluindo. E esse é um outro trabalho que nós submetemos há pouco tempo, está em pré-impressão. Pode ser que a P.1 se torne ainda mais difícil de ser neutralizada como é o caso da B.1.351.

 

CH: Quais são as características da variante P.1 que a tornam tão diferente da cepa de SARS-CoV-2 original?

FN: Como a P.1 é uma evolução da linhagem B.1.1.28, o correto é comparar com ela e não com a primeira da qual está muito distante. No dia em que o Japão deu o alerta da P.1, nós tínhamos acabado de sequenciar as amostras de novembro e estávamos sequenciando as de dezembro. Assim, após a publicação da sequência da P.1, no dia 11 de janeiro, nós comparamos com amostras de novembro e conseguimos, naquele dia, mostrar que a P.1 era sim originada do Amazonas a partir da linhagem B.1.1.28. No dia 12 de janeiro, demos o alerta de que não só a P.1 estava em nove municípios do Amazonas, mas, também, que causava reinfecção. A primeira sequência de P.1 que analisamos já era um caso de reinfecção. Então, o que nós sabemos da P.1: surge sem nenhum intermediário mais próximo, salta diretamente da ancestral B.1.1.28, tem várias mutações, mas as três mais importantes são na RDB da spike, e se torna dominante muito rapidamente. Nós também encontramos aqui no Amazonas uma carga viral maior nos pacientes de P.1 em comparação aos outros. Além das alterações na spike, há uma mutação que tem me chamado muito a atenção na proteína NSP6 e que aparece nas três variantes de preocupação. É algo que tem que ser investigado. A mutação na spike é a mais importante por ser o primeiro contato com a célula e responsável pela evasão dos anticorpos, mas outras proteínas tem regiões que, se modificadas, podem ter consequências importantes. Outro ponto: encontramos uma sequência de P.1, que chamamos de P1-like, e que ainda não chamamos de nova variante porque temos quatro sequências e não cinco, mas vamos acabar encontrando uma quinta. Ela derivou do mesmo ancestral da P.1.

 

CH: A P.1 e outras novas variantes são responsáveis pelo aumento de casos em jovens?

FN: Do ponto de vista biológico, não há uma resposta do por que a P.1 afetaria mais os jovens. O que podemos dizer: no Amazonas, prevíamos o aumento de casos no final do ano porque, na segunda quinzena de novembro, começa o inverno amazônico, temporada de chuvas que, historicamente, tem aumento das infecções por vírus respiratórios. Sabíamos também que as pessoas se encontrariam nas festas de fim de ano. O que ainda não sabíamos na época era da circulação da P.1, uma variante mais transmissível. A hipótese que colocamos no nosso trabalho é que a circulação de abril de 2020 até janeiro de 2021 deu à linhagem B.1.1.28 a chance de evoluir para P.1. E aí as condições do clima e aglomerações das festas somadas a uma variante mais transmissível, tiveram como resultado a catástrofe que se viu no Amazonas. Então, respondendo à pergunta, há uma parte comportamental e não só biológica: os jovens estão mais expostos no momento em que está circulando uma variante mais transmissível.


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