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Clubes já estimam recorde de lesões na pandemia após volta às pressas e calendário apertado

Os cem dias de atividade do futebol brasileiro depois da paralisação em meio à pandemia já produziram média de lesões maior do que nos últimos anos. Os dados só serão consolidados ao fim da temporada pela CBF, que vai ceder as informações para um estudo científico, mas os relatos de profissionais dos departamentos médicos dos clubes da Série A ouvidos pela reportagem indicam situação nunca antes vista. Eles tentam atenuar as perdas com medidas preventivas.

O cenário se intensifica com a retomada da Copa do Brasil na fase de oitavas de final. Seis clubes que disputam Brasileiro e Libertadores, como Flamengo e Athletico — adversários hoje, 21h30, em Curitiba —, têm desafio extra para não sobrecarregar seus elencos. O rodízio tem sido comum também no Santos, Grêmio, Inter e Palmeiras, que jogam as três competições.

Hoje, o Fla não terá Rodrigo Caio, Arrascaeta, Diego Ribas e Gabigol, todos recuperando de lesão. Mas desde a volta do futebol já perdeu Bruno Henrique, Filipe Luís, João Lucas, Pedro Rocha e Diego Alves— que deve voltar ao gol hoje. A realidade é especialmente complicada para o Internacional, que enfrenta o Atlético-GO também hoje, e tem três atletas fora por lesão no ligamento cruzado do joelho: Guerrero, Saravia e Boschilla. O Grêmio, que amanhã encara o Juventude, chegou a ficar ao mesmo tempo sem Geromel, Victor Ferraz, Kannemann, Maicon, Guilherme Guedes, Jean Pyerre e Pepê.

Segundo especialistas dos clubes ouvidos pela reportagem, o futebol brasileiro tem sofrido de forma peculiar com traumas imprevisíveis — até mais do que os problemas musculares, que os clubes tentam reduzir com rodízio e controle de carga nos treinos. Há casos repetidos de pisões, provocados pela perda do tempo de bola. O fato é atribuído ao pouco tempo de treinamento básico depois da paralisação.

Não houve nova pré-temporada adequada. Tirando o Flamengo, que voltou no dia 18 de junho, a maioria dos clubes retornou em 22 de julho, depois que a CBF interrompeu as competições em 15 de março. Foram quase cinco meses sem jogar uma partida oficial. Na volta, os atletas treinaram em grupos reduzidos e atuaram nos estaduais já em fases finais. Duas semanas depois, o Brasileiro começou, com viagens longas e partidas com competitividade altíssima. O primeiro turno chega ao fim essa semana, e a conta a pagar é cara.

Parâmetros atrasados

O último estudo da CBF sobre o lesões é do Brasileiro de 2017. Foram 327 problemas físicos, 177 no primeiro turno e 150 no segundo. Houve predominância de estiramentos musculares (37% dos casos), traumas (26%) e entorse (18%). Em 2019, os clubes pediram que a entidade não publicasse o levantamento sobre o ano de 2018. A CBF cogita um estudo parcial sobre 2020, em função da peculiaridade da pandemia. As equipes preenchem o sistema da entidade a cada duas rodadas para um comparativo ao fim da temporada. Mas não há dados atualizados em razão do ineditismo da situação.

A diferença deste ano é que, com o calendário apertado, há ainda menos tempo de recuperação para os atleta no pós-jogo, o que os profissionais acreditam ser o principal causador de lesões musculares. Nesse cenário, as equipes têm lançado mão de garotos para repor as perdas.

Segundo os médicos, preparadores físicos e fisiologistas, o índice de lesões também será agravado por causa do tempo de inatividade durante a quarentena. O argumento é que não se trata apenas de prejuízo físico, mas técnico: a falta de entrosamento leva a esforço maior nos jogos, com atletas correndo errado e chegando atrasado nos lances.

Mesmo assim, segundo os médicos, preparadores físicos e fisiologistas ouvidos, o índice de lesões será maior pelo tempo de inatividade durante a quarentena. O argumento é que não se trata apenas de prejuízo na parte física, mas técnica. O que reduz o entrosamento das equipes, e consequentemente leva a esforço maior nos jogos, atletas correndo mais errado e chegando atrasado nos lances.

O recado das diretorias para as comissões técnicas é que uma solução deveria ser encontrada, pois já há déficit finaneiro com a ausência de bilheterias em função da falta de público e a debandada de patrocinadores. Alguns clubes, como o Palmeiras, investiram em equipamentos de controle de carga. O Flamengo tem um programa individualizado de prevenção de lesão em cima das avaliações e histórico dos atletas.

Dos organizadores, houve mais flexibilidade, com a liberação de até 50 inscritos nas competições da CBF e a aplicação das cinco substituições, o que ajudou o rodízio a se tornar uma alternativa até mesmo durante os jogos. A conta dos clubes é a seguinte: a cada quatro partidas, na média, os atletas atuam efetivamente em três e descansam em uma, mesmo que fiquem à disposição no banco de reservas.

Fora isso, há outras técnicas de recuperação, como cuidados com o descanso, alimentação e também o fretamento de voos para evitar o desgaste das viagens. Com a menor procura por voos comerciais na pandemia, os clubes conseguiram bons preços para reduzir o tempo entre os deslocamentos.

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