Esportes

Como a Arábia Saudita se prepara para ser a sede da Copa do Mundo de 2030

Nada está fora de questão para a Arábia Saudita. Nem uma proposta para comprar um dos maiories clubes da Inglaterra, nem ofertas multi-milionárias por pacotes de direitos de transmissão. Nem mesmo uma então improvável candidatura para sediar a Copa do Mundo de 2030.

O país se prepara para alcançar a prateleira principal do futebol mundial, e o ponto central desses esforços é a candidatura para o maior “prêmio” do esporte. Para atingir esse objetivo, a Árabia Saudita contratou a Boston Consulting Group (empresa de consultoria) para analisar a melhor forma de sediar o torneio quadrienal — um dos mais assistidos do esporte — apenas oito anos após o Qatar se tornar o primeiro país do Oriente Médio ser palco do evento.

Leia mais:COI vota em julho para escolher sede dos Jogos Olímpicos de 2032; Brisbane, na Austrália, é favorita

Vários outros cosultores ocidentais foram chamados para ajudar no projeto, de acordo com um dos conselheiros que estuda a viabilidade de uma candidatura saudita, e estes acreditam que a proposta exigirá “pensar fora da caixa”, incluindo a possibilidade de dividir o evento com um parceiro da Europa. Apesar da crescente influência da Arábia Saudita no futebol, uma possível candidatura, na forma atual, ainda é considerada uma aposta alta.

Um porta-voz do Boston Consulting Group negou pedidos de comentários sobre o assunto, por política da empresa.

Os esportes rapidamente se tornaram pilar central do programa governamental “Visão 2030”, um esforço estratégico para afastar o país da dependência da exportação de petróleo. Recentemente, os sauditas têm apostado em um esforço concentrado nos bastidores para conseguir se juntar ao rival regional Qatar como um dos maiores detentores de poder no futebol.

Governo saudita tentou adquirir o Newcastle Foto: LINDSEY PARNABY / AFP

 

A estratégia vem obtendo resultados variados. O país conseguiu convencer ligas da Itália e da Espanha a assinar contratos lucrativos e levar finais de copas domésticas para o país. Mas falhou em adquirir os direitos de transmissão da Champions League e na aquisição de um clube da Premier League (o Newcastle).

Apesar dos resultados, a ambição permanece intocada. A Arábia Saudita está determinada a fazer parte da relação principal das propriedades do esporte, e a Copa do Mundo está no coração desses esforços.

Críticas e logística para o torneio

Organização internacionais de direitos humanos vem sendo fortes opositores à realização de grandes eventos esportivos na Arábia Saudita, particularmente depois que o país foi acusado de ser cúmplice no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018.

Leia também:Como a Eurocopa reflete as tensões geopolíticas ao longo de seis décadas

Mas a maior dificuldade em relação à Copa do Mundo é de natureza técnica. Levando em conta que o Qatar sediará o primeiro Mundial no Oriente Médio no fim do ano que vem, uma possível candidatura saudita precisaria que a Fifa mudasse sua política de rotação continental para trazer o evento de volta à região.

Uma das opções é se juntar a um dos países europeus que também planejam sediar o torneio. Até agora, o Reino Unido e uma parceria entre Portugal e Espanha (país aliado dos sauditas no futebol) anunciaram publicamente o interesse de participar da disputa. A Itália, outro aliado saudita no futebol, também considera concorrer ao evento pela primeira vez desde 1990.

Em janeiro do ano passado, Atlético de Madrid e Real Madrid decidiram a Supercopa da Espanha na Arábia Saudita Foto: SERGIO PEREZ / Reuters
Em janeiro do ano passado, Atlético de Madrid e Real Madrid decidiram a Supercopa da Espanha na Arábia Saudita Foto: SERGIO PEREZ / Reuters

 

Um modelo de sede intercontinental também necessitaria que a Fifa mudasse suas políticas. A entidade nunca sediou uma Copa em dois continentes. Em 2002, o torneio foi nos vizinhos de Ásia Japão e Coreia do Sul. A edição de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, será a primeira vez em que o torneio — ampliado de 32 para 48 participantes, será realizado em três continentes.

Para que uma candidatura dê certo, os organizadores precisarão ainda ser convencidos a trocar as datas do torneio novamente. No lugar da janela tradicional de junho e julho, entrariam os meses de novembro e dezembro, por conta das altas temperaturas no Golfo Pérsico. O expediente já será adotado por segurança na Copa do Qatar, e as ligas europeias, cujos calendários seriam alterados, podem relutar em aceitar novamente a interrupção no período.

Boa relação com Infantino

As esperanças sauditas são impulsionadas pela proximidade com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que recentemente foi alvo de críticas de organizações de direitos humanos por estrelar um vídeo promocional do ministério dos esportes do país.

Em Janeiro, Infantino se reuniu com o príncipe Mohammed bin Salman, o arquiteto por trás do projeto “Visão 2030”. No mês passado, a Fifa aceitou uma moção da federação de futebol saudita para diuscutir a possibilidade de realizar a Copa do Mundo de dois em dois anos, e não mais no formato quadrienal. Esse cenário possibilitaria a mais países apresentarem candidaturas.

O príncipe Mohammed Bin Salman, à frente do projeto "Visão 2030" Foto: COURTESY OF SAUDI ROYAL COURT / VIA REUTERS
O príncipe Mohammed Bin Salman, à frente do projeto “Visão 2030” Foto: COURTESY OF SAUDI ROYAL COURT / VIA REUTERS

— É hora de rever como o jogo global está estruturado e considerar o que é melhor para o futuro do nosso esporte. Isso inclui pensar se o ciclo atual de quatro anos permanece a base ideial para a direção do futebol nas perspectivas competitivas e comerciais — afirmou Yasser al-Miseha, presidente da federação, à época.

Um porta-voz da entidade não quis comentar a possibilidade de uma candidatura a sede da Copa, mas ressaltou que o país tem se tornado rapidamente um destino para grandes eventos esportivos. Nos últimos anos, sediou partidas de boxer, corridas de automobilismo e eventos de golfe.

“Estamos focados em tomar as rédeas no jogo global também, transformando nossa paixão em sucesso em campo, bem como colaborar ainda mais com a família do futebol internacional”, afirmou a federação, em comunicado.

Presidente da Fifa, Gianni Infantino tem relação próxima com os sauditas Foto: ARND WIEGMANN / Reuters
Presidente da Fifa, Gianni Infantino tem relação próxima com os sauditas Foto: ARND WIEGMANN / Reuters

 

Apesar disso, a Arábia Saudita precisa reconstruir pontes com a economia do futebol, ainda sofrendo os efeitos de uma sofisticada emissora de TV pirata com base no país que por anos roubou bilhões de dólares em conteúdo esportivo, repaginado e vendido a assinantes. A Fifa e outras competições como a Premier League e La Liga não conseguiram entrar com ações legais no país para impedir a operação.

A emissora que fazia as transmissões, a BeoutQ, criada durante uma crise regional com o Qatar, está fora do ar. Enquanto o conflito com o vizinho do Golfo foi majoritariamente resolvido, a beIN, emissora esportiva de propriedade qatari, segue banida no país. Isso significa que a única forma dos fãs de futebol sauditas assistirem à Eurocopa e à Copa América será por meio de transmissões ilegais.

Na quarta-feira, a Uefa rejeitou uma oferta da Arábia Saudita de 600 milhões de dólares para transmitir a Champions League regionalmente. A entidade preferiu continuar com seu atual parceiro, a beIN.


Fonte

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Notamos que você usa um Adblock ativo!

A publicidade é uma fonte importante de financiamento do nosso site. Por favor, deslique seu Adblock para que possamos gerar receitas através dos anúncios. Não vai sair do seu bolso. ;)