Esportes

Como a Eurocopa reflete as tensões geopolíticas ao longo de seis décadas

Ao anunciar a edição comemorativa de 60 anos da Eurocopa pela primeira vez descentralizada, com jogos em diversas partes do continente, a Uefa tinha o sonho de celebrar “uma só Europa, de leste a oeste, de norte a sul”, segundo o então presidente Michel Platini. Mas a tensão provocada nos últimos dias pela inclusão da Crimeia no mapa que estampa a camisa da Ucrânia — provocando forte reação da Rússia, que anexou a região em 2014 —, diz mais sobre a história da competição do que as palavras do francês: um campeonato que, em seis décadas, levou para o campo a tensão secular das frágeis fronteiras do Velho Continente.

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Adiada em um ano pela pandemia, a Euro começa hoje com 24 seleções divididas em seis grupos, se enfrentando em 11 países até a final, em Wembley, em 11 de julho. O confronto entre Itália e Turquia, às 16h (de Brasília), no Olímpico de Roma, abre a 16ª edição da competição que, mesmo depois de tanta dificuldade para sair do papel, seguiu acompanhando a história conflituosa de seu tempo.

— Se algo fez com que a Eurocopa fosse a última grande competição de seleções a tomar forma, muito depois da Copa América e Copa do Mundo, foi sem dúvida a problemática geopolítica da Europa — afirma Miguel L. Pereira, autor de “Sonhos da Euro” (tradução livre, inédito no Brasil). — A ideia original era dos anos 1920, mas todos os problemas políticos, com ascensão das ditaduras fascistas, Segunda Guerra Mundial e posterior divisão em dois blocos atrasaram ao máximo a primeira edição.

Grupos Eurocopa Foto: Editoria de arte

Sombra do totalitarismo

A disputa inaugural da Euro ocorreu em 1960, na França, sob o temor do caldeirão quente da Guerra Fria entornar a qualquer momento. Tanto que, ao ver a oportunidade de exibir uma boa imagem do regime do outro lado da Cortina de Ferro, o governo soviético fez apenas dois pedidos ao time de Graviil Kachalin: o primeiro, que se comportassem. O segundo, que voltassem para casa com a taça.

A finalíssima contra a Iugoslávia, país comunista independente das ordens de Moscou, foi cercada de nervosismo — os países tinham grande rivalidade por terem se enfrentado nas Olimpíadas anteriores. Nas tribunas do Parque dos Príncipes, franceses simpáticos aos russos e a Belgrado chegaram ao confronto, enquanto dentro de campo a equipe de Lev Yashin vencia por 2 a 1 — um alívio na volta para casa.

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Ideologia política e futebol se misturariam ainda mais quatro anos depois, quando o general Francisco Franco transformou a segunda Eurocopa em um braço importante das celebrações de 25 anos de sua chegada ao poder na Espanha. Mas por pouco o ditador não se ausentou da final contra a União Soviética: temendo uma derrota, depois de triunfo apertado contra os húngaros, Franco precisou ser convencido pelos falangistas (partido único à época) de que sua presença nas tribunas do estádio era importante do ponto de vista propagandista. A decisão foi milimetricamente pensada: membros do partido se infiltraram em diversos setores do estádio para assegurar que o nome de Franco fosse gritado.

Na noite de Madri, os espanhóis, que jogaram de azul, a cor do regime, venceram o primeiro de três títulos continentais, por 2 a 1.

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— Nos anos 1970 houve também alguma tensão entre tchecos e soviéticos como consequência da invasão de Praga em 1968, mas a situação foi-se normalizando. No final dos anos 1980, por exemplo, era mais falada a rivalidade entre ingleses e irlandeses, pelas questões do terrorismo, do que propriamente um contexto político — conta Miguel, lembrando que a seleção irlandesa de 1988 teve papel importante para mudar a visão que a Europa tinha do país, por causa da atuação terrorista do IRA.

Segundo Miguel, a Uefa teve, até os anos 1990, um critério apolítico, não condicionando sorteios ou decisões a problemas diplomáticos — o que acarretou em conflitos e seleções se negando a disputar partidas eliminatórias em países com os quais tinham relações cortadas. Só no fim da década seguinte, passou a ter postura mais ativa, mudando locais de jogos para evitar conflitos.

Campo político Foto: Editoria de arte
Campo político Foto: Editoria de arte

Volta ao Leste

Mesmo com a dissolução do bloco comunista, o Leste europeu segue sendo foco de tensão na Eurocopa. Em 2012, a Ucrânia foi sede da competição, ao lado da Polônia, numa tentativa de dissociar sua imagem dos russos e acenar à Europa Ocidental. Aquela edição foi marcada pela marcha dos torcedores russos nas ruas de Varsóvia que acabou com mais de 50 detidos — Polônia e Rússia têm uma complicada relação, sobretudo após a Primeira Guerra.

Nas Eliminatórias da Euro-2016, uma partida entre Albânia e Sérvia terminou em confusão após um drone ressaltando a autonomia albanesa cair sobre o gramado da Partizan Arena, na Sérvia. A partida acabou em briga generalizada.

— O esporte é um mecanismo de nacionalismo muito poderoso — afirmou o cientista político Maurício Santoro ao GLOBO, no início da semana. — Nos últimos anos, eu diria que o futebol está sendo mais uma arena desses conflitos e não efetivamente um instrumento de apaziguamento.

A Albânia também protagonizou um dos jogos mais aguardados de 2016, quando enfrentou a Suíça, país que abrigou refugiados da Guerra do Kosovo (seis atletas suíços na ocasião eram de origem albanesa).

Agora, as atenções se voltam de novo ao Leste. Diante das reclamações da Rússia,a Uefa determinou ontem a modificação no uniforme da Ucrânia por considerar “claramente de natureza política” a frase “Glória aos heróis” contida na gola da camisa. A frase, juntamente com “Glória à Ucrânia”, começou como canto patriótico, se transformou em grito de adesão durante a revolta popular que derrubou o presidente apoiado pelo Kremlin, Viktor Yanukovich, em 2014. Moscou associa as frases a grupos nacionalistas da Segunda Guerra, que lutaram contra os soviéticos.

Por outro lado, a entidade validou o mapa que aparece na camisa, que inclui a Crimeia, assim como territórios do leste controlados por separatistas pró-Rússia. O argumento é que a forma corresponde às fronteiras reconhecidas internacionalmente.

A Rússia está no Grupo B, com sede em São Petersburgo e Copenhague. Ucranianos estão no C, com jogos em Bucareste e Amsterdã. As duas equipes podem se enfrentar em uma possível quartas de final, o que deixa o sinal de alerta ligado.


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