Esportes

Dia das mães: angústias, medos e realizações das atletas olímpicas muito além da maternidade

Neste Dia das Mães, O GLOBO convidou quatro atletas olímpicas que, em depoimentos, contaram os desafios da carreira para além da maternidade. Angústias, medos, realizações e sonhos para o futuro que perpassam o fato de terem sido mães, com planejamento ou não, no início ou no auge de seus esportes. Inspiradas por seus filhos, Tandara, Tamires, Fernanda e Rebecca se orgulham das conquistas e relembram momento marcantes em suas trajetórias.

A jogadora de vôlei, de 32 anos, mãe de Maria Clara, de 5, luta para chegar em forma em Tóquio e retornar aos Jogos Olímpicos, após o corte em 2016, com um dos pilares da seleção de Zé Roberto Guimarães. Aos 36 anos, Tamires é um dos principais nomes da seleção feminina de futebol. Sob o comando da sueca Pia, a técnica algoz do Brasil nos Jogos do Rio, a lateral-esquerda estuda as adversárias para repetir momentos memoráveis, como a cobrança do pênalti no Mineirão contra as australianas em 2016.

Com 25 anos de carreira, velejadora Fernanda Oliveira, de 40 anos, se apoia na parceira Ana Barbachan (classe 470) para suportar o ano olímpico longe de Roberta, 7 anos, e Arthur, 4 anos, pela primeira vez. O amor à vela, no entanto, a fortalece para continuar nas águas até que a tirem dali.

Estreante em Olimpíada, a jogadora de vôlei de praia Rebecca, de 28 anos, mãe de Isabella, de 6, achava que vivia o melhor momento profissional quando engravidou. Até tudo mudar em 2019, com um ano impecável e a classificação.

Tandara

Após o corte, a busca para retornar aos Jogos

“Cheguei na seleção adulta no Pan-2011, quando o Brasil foi ouro, mas não esperava ir para Londres-2012. Novamente fomos campeãs. Naquela edição, meu papel era secundário. Fui reserva da Sheilla e joguei em poucos momentos, mas decisivos. Entrei em quadra como se fosse buscar o último ponto da vida — era minha missão e consegui. Foi uma realização. Lembro de tudo, do embarque ao pódio. Era um frio na barriga constante. Para mim, a minha Olimpíada era a do Rio. Mas fui cortada. Entendi, apenas depois, que não era mesmo o meu momento. O que fiz lá atrás não havia sido suficiente, faltou um pouquinho. Tinha acabado de ser mãe. Chorava porque queria voltar para casa para ficar com a Maria Clara, mas também porque queria jogar a Olimpíada. Depois disso, construí a melhor Tandara da minha carreira. Fui para o clube decidida a crescer, me coloquei metas e fui destaque na Superliga com três prêmios individuais. Na temporada seguinte, MVP e bati recordes. No Grand Prix-2017, me senti uma verdadeira líder. Eu me considero uma das melhores jogadoras do Brasil. Não é para desmerecer ninguém, é porque preciso disso para me motivar. Quero coroar minha preparação na Liga das Nações, sem pular etapas. Vou perder mais uns 5 quilos e chegar no auge. O corte de 2016 me entristeceu por um tempo, mas foi um grande aprendizado. Eu e Camila Brait passamos por isso juntas e hoje estamos aqui, juntas, podendo reescrever nossa história. Todos dizem que serei um dos pilares da seleção em Tóquio — e até entendo. Mas, nesse momento, ainda corro atrás da vaga.”

Tamires Dias

A emoção do pênalti na presença do filho

“Se tivesse algo para falar para a Tamires de 21 anos, que se descobriu grávida, seria: ‘por que está chorando?’ Mudaria os três dias que aquela Tamires passou se perguntando por que aquilo estava acontecendo logo no início da carreira. Diria que estava recebendo uma dádiva. Estou há oito anos na seleção onde todos confiam no meu trabalho. Foi uma alegria muito grande quando passei no teste do Centro Olímpico (após mais uma parada por causa da maternidade), em 2013. Me lembro bem daquela quinta, estava determinada e o Arthur (hoje técnico do Corinthians) me viu. Um tempo depois, veio a ligação do Marcinho, técnico da seleção, me abrindo novamente as portas. Vivi ali momentos desafiadores, como a cobrança de pênalti nas quartas dos Jogos de 2016. No Mineirão, com o Bê, minha família e várias pessoas de Caeté ali. Um sonho se realizando. Fui a sétima a bater, depois a Bárbara pegou o pênalti e nos classificamos. Lembro até hoje do meu semblante, da caminhada até a marca e só pensava na minha finalização, um chute no alto cruzado. Nada do entorno passava mais pela minha cabeça. No período da pandemia, estudei mais o futebol, para que em 2021 eu seja a mesma Tamires que seria em 2020 na Olimpíada. Foi bom esse ano a mais com a Pia para assimilar ainda mais o plano de jogo dela. Hoje consigo entender como a Suécia conseguiu tirar a gente nas semifinais dos Jogos do Rio. Elas seguiram o plano de jogo. O futebol não é só talento. Pode ser minha última Olimpíada, então quero olhar para trás, ver que conquistei tudo que podia e deixei um legado para as próximas gerações.”

Fernanda Oliveira

Como os ciclos olímpicos marcaram a vida pessoal

“Cada ciclo olímpico foi marcado pelo desafio que estava vivendo na vida pessoal. Nos dois primeiros, faculdade. Depois de Pequim, casei; tive a Roberta após os Jogos de Londres e o Arthur veio depois do Rio. Para que eu consiga seguir velejando em nível olímpico por 25 anos tenho que encontrar o equilíbrio. O maior desafio agora tem sido viajar sem ele, passar dias longe, pois me sobra vontade de velejar sem pensar na idade. Mas é uma saudade que estrangula. Até que encontrei uma fórmula que dá certo, com um tempo fixo fora de casa. E para isso toda a equipe e minha família ajudaram. A Ana (Barbachan, parceira na classe 470) é muito compreensiva e está sempre de braços abertos. Sempre conversei com ela antes das minhas decisões e, por ser psicóloga, me dá muito acolhimento. Essa parceria é um pilar e começou num ciclo muito difícil, para Londres. Tinha conquistado o bronze em Pequim, ciclo muito vitorioso com a Bel (Isabel Swan). Casei e achei que fosse parar, mas o técnico me falou para testar com a Ana, que tinha só 18 anos. Ela amadureceu muito e hoje conseguimos resolver tudo ali na água. Ficamos de agosto de 2019 até março deste ano sem encontrar nossas adversárias. Brinco com a Ana que vamos deixar o sprint para o final, vamos dar a arrancada que essas gurias não vão nos ver. A listinha da vida já fui ticando tudo. Agora é só viver. Se me esquecerem ali vou ficando até alguém me tirar de maca. Me sinto muito viva com vontade de competir, e com aquele brilho no olho. Independentemente da escolha de futuro, preciso avaliar o que vou fazer para continuar me sentindo leve.”

Rebecca Silva

‘A Isabella foi aquela bomba de adrenalina’

“O vôlei está na minha vida desde sempre, cresci vendo meus pais jogarem. Após curto período na quadra, me encontrei no vôlei de praia. Sentia que mesmo estando em Fortaleza, poderia chegar entre as melhores do mundo. E as coisas aconteceram rápido. Quando achei que estava vivendo meu melhor momento profissional, engravidei. Foi um susto. Mas a Isabella ajudou a transformar tudo na minha vida, foi aquela bomba de adrenalina que impulsiona a gente. Ao contrário do que pensava, o melhor momento da carreira estava por vir. No finalzinho de 2018, eu, Ana Patrícia e nossa comissão decidimos disputar um campeonato na Holanda que começava nos primeiros dias de janeiro. Foi a melhor decisão, mudaria as nossas vidas. Foi nosso primeiro ano disputando o Circuito Mundial completo, fomos para a Holanda e vencemos o primeiro torneio. Nossa! No fim de 2019, com a somatória de muitos resultados positivos, veio a confirmação da classificação para Tóquio. Conseguimos terminar o ano entre as melhores do mundo. Saímos lá de Fortaleza, sem expectativa de ninguém e atingimos o maior objetivo de um atleta. Ninguém apostava na nossa classificação. As outras duplas brasileiras eram mais experientes. Mas a gente acreditava. Agora, queremos ganhar medalha. Só a gente sabe a pressão que é uma corrida olímpica. Alto rendimento é dureza, temos que abrir mão de muita coisa e, ao mesmo tempo, somos humanas, com fraquezas, dificuldades, decepções e erros. Nunca vou esquecer 2019. E quero um dia lembrar com a minha filha como foi conquistar uma medalha olímpica.”

 

 


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