Esportes

Gustavo Poli: Interrompido – Jornal O Globo

No domingo, 1º de maio de 1994, eu completava quatro meses como repórter de O Globo e tinha uma pauta trivial: cobrir um campeonato de surfe na Prainha, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Acordei cedo, tomei café, peguei bloquinho, caneta e liguei a TV pra dar uma olhada na Fórmula 1 antes de sair de casa.

— Senna bateu forte —gritou Galvão Bueno.

No início parecia apenas um acidente, mas rapidamente ficou claro que havia algo pior. Bem pior. Telefonei para o jornal, onde já estava o subeditor de “Outros Esportes” Álvaro Oliveira Filho, o Alvinho:

— Esquece o surfe. Vem pra redação.

Foi um domingo longo. Cheguei no jornal perto das 11h. Todos os jornalistas da editoria foram surgindo, um por um, com expressões vazias. A morte de Ayrton Senna da Silva foi confirmada às 13h. Até hoje lembro da conversa do César (Seabra), o editor, com os subs Tadeu (de Aguiar) e Lédio (Carmona) para incluir uma tarja preta com uma frase e o rosto de Senna no alto de cada uma das 26 páginas do Caderno de Esportes.

Mas a morte de Ayrton não nos deixou. Ela ficaria semanas, meses conosco.

A tragédia tem uma substância pastosa. O cadáver célebre chega subitamente — e vai embora devagar. A morte no auge soa especialmente injusta e imprópria. Ela remove o presente e o futuro. Senna já era tricampeão, mas estava longe de parar. Era um talento obcecado no estilo Jordan, Federer, Hamilton. Parecia ter muita história a escrever. E de repente, não tinha mais nenhuma. Tinha sido interrompido.

Esta semana Paulo Gustavo também foi interrompido. Como Senna, ele estava no auge. Como Senna, era querido e admirado. Como Senna, ele fazia o Brasil sorrir e ter um certo orgulho de si mesmo. Esses itens andam em falta. Temos um país que observa suas expostas vísceras como jamais.

O humor sempre foi nosso refúgio. É brasileiro rir — e rir de tudo — até das tragédias. Por isso a morte do humorista soa tão estranha. Parece uma contradição. No ocidente, a morte é tudo menos divertida. Se morre o malabarista, o trapezista, o domador — tudo bem, eles estão no risco. Quando morre o palhaço, a alma do circo parece ir embora. A tristeza se mistura com incredulidade.

Mas o circo continua. O show continua. Virão outros palhaços, outros pilotos, outros ídolos. Talvez nem tão craques — talvez com outros encantos —, mas virão. De “Senna bateu forte” a “É Tetra! É Tetra!” foram dois meses e meio em 1994. Em algum futuro estaremos todos vacinados contra teimosia e doença. Em algum futuro enterraremos nossos mortos — os célebres e os anônimos — e encontraremos de novo a empatia perdida. Por ora, temos de processar o palco vazio.

Nos quadrinhos de Watchmen, a genial novela gráfica de Alan Moore e Dave Gibbons, o detetive sem rosto Rorscoach investiga a morte de outro herói, o Comediante. Agachado diante da lápide do morto, ele se lembra de uma anedota: um homem vai ao médico se dizendo deprimido. “A vida é cruel e ameaçadora”, diz o homem. “O tratamento é simples” — responde o médico — “um grande palhaço, Pagliacci, está na cidade hoje. Vá ao show dele”.

O homem começa a chorar e responde: “doutor… eu sou Pagliacci”.


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