Esportes

Gustavo Poli: sommelier de treinador

As duas declarações abaixo são de autoria de Roberto Drummond:

1 — “Eu quero um gol de meia-bicicleta de Reinaldo para tatuar na pele da lua e tomar o lugar de São Jorge com seu cavalo, para que os namorados e os ex-namorados, os amantes e os ex-amantes, de todas as idades, digam uns aos outros, apontando para a lua: Olhe só o que pode um homem, mesmo quando está caído.”

2 — “O cara não cai. Não sei porque. Ele é uma pessoa ruim. Enquanto ele continuar lá a gente está perdido. (…)Pelo amor de Deus, este áudio é extremamente confidencial”

Não são frases do mesmo Roberto Drummond, claro. A primeira é do escritor mineiro apaixonado pelo Atlético-MG e falecido em 2002. A segunda é do analista de desempenho do Flamengo após derrota para o mesmo Atlético-MG. Drummond, o escritor, falava de Reinaldo — atacante que encantava o Brasil nos anos 80. Drummond, o analista, falava de Rogério Ceni — o treinador que seu áudio vazado ajudou a degolar. A primeira declaração vislumbra a beleza do futebol. A segunda ilustra sua guilhotina incessante.

O Fla-Jesus modelo 2019 acostumou mal a torcida rubro-negra. O torcedor passou a esperar um time dominante, imbatível. Não importa se Rogério Ceni ganhou Brasileiro e Estadual. Não importa se perdeu craques por seleção, transação ou lesão. O treinador é o mordomo do futebol — a culpa é sempre dele. As redes sociais exacerbaram esse destino. Cada nicho de torcida virou um moedor de carne. Renato Gaúcho que o diga. Ele assumiu há exatamente um jogo (1) e já sentiu a sanha dos sommeliers de treinador. No meu grupo de jornalistas ancestrais, um rubro-negro profundo usou adjetivos como “vergonhosa e inaceitável” para descrever a vitória na Libertadores. Você não leu errado. Tudo bem que o Fla jogou mal e deu sorte. Mas… vergonha?

O grito da arquibancada se transformou num eco perene. Ele pula de um tuíte para um post, transita via meme ou vídeo e gera uma onda de cobrança constante. A outra queda da semana foi a de Marcelo Chamusca, o sexto pescoço cortado pelo Botafogo desde 2020. Novamente: você não leu errado, o clube está indo para o sétimo treinador em menos de dois anos. A situação financeira é desesperadora. O elenco demanda crachá para reconhecimento. A escalação parece uma folha de ponto de repartição: Daniel Borges, Diego Gonçalves, Pedro Castro, Felipe Ferreira. O jogador mais famoso, Rafael Moura, o He-Man, é tão veterano que já foi vacinado contra Covid. Será culpa apenas do treinador demitido? Ou décadas de amadorismo estão apresentando sua conta?

Numa crônica memorável sobre o Galo, Roberto Drummond escreveu que “Se houver uma camisa branca e preta pendurada num varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento”. Tamanho amor demanda respostas imediatas. A arquibancada é capaz de transformar o mais plácido dos monges num neandertal. A questão não é defender este ou aquele treinador, mas frisar que paixão e gestão nem sempre combinam. Técnicos podem ser cobrados e demitidos. Mas muitas vezes a demissão é uma saída pela tangente. Em sua loucura, o torcedor vai sempre curtir a resposta rápida, a solução simples para o problema complexo. Não há, como se sabe, receita melhor para o fracasso.


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