Esportes

“Ímola 94” relembra morte de Senna e décadas de histórias da Fórmula 1 e do jornalismo

O título “Ímola 94” (editora Gulliver) leva o leitor diretamente para aquele indelével 1º de maio. A capa traz a lembrança daquela tragédia histórica, que completa hoje 27 anos. O livro do jornalista Flavio Gomes, no entanto, não é sobre a morte de Ayrton Senna ou o piloto tricampeão mundial de Fórmula 1 em si.

É um livro, sobretudo, de histórias e da História rascunhada pelo jornalismo. Crônicas saborosas, cômicas e tristes que passeiam por décadas da profissão e da Fórmula 1 sob o olhar afiado e aguçado do autor. O ponto de chegada é o adeus ao ídolo brasileiro, episódio divisor de águas no automobilismo e que precedeu grandes mudanças na cobertura com a velocidade da internet.

— Aquele 1º de maio representa alguma coisa para muita gente. Para quem cobria Fórmula 1 naquela época o episódio teve o peso da queda do Muro de Berlim para quem fazia noticiário internacional. Foi uma tragédia envolvendo uma pessoa idolatrada em todo o mundo — diz Flavio Gomes, que foi editor de esportes e repórter especial de F1 da “Folha de S.Paulo”, ressaltando as mudanças no jornalismo neste período. — É tempo suficiente para se ter uma noção do que foram aqueles tempos, de como era o jornalismo de três décadas atrás, de constatar como a gente enfrentava dificuldades sem saber como as coisas seriam bem mais fáceis alguns anos depois. Mas, sobretudo, de entender como o jornalismo mudou de lá para cá e se tornou um ofício menos humano, paciente e elaborado.

Senna, Lauda, Rubinho: relembre alguns dos acidentes mais impactantes da Fórmula 1

Gomes foi buscar no fundo da memória lembranças encerradas em caixas guardadas desde a infância. Ali, surgem o menino apaixonado por carros e com a profissão definida já aos 9 anos de idade — quando “fundou” seu primeiro jornal — e o jovem adulto incumbido de cobrir o esporte que dava ídolos ao Brasil, como Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet, além de Senna.

Ao passo que os títulos, as grandes corridas e as tragédias ganham dimensão histórica no jornal impresso, são as histórias cotidianas que dão sabor ao livro e à vida. Das pegadinhas aos fãs de Senna ao churrasco em Magny Cours com o ilustre penetra Michael Schumacher.

— Gosto particularmente das molecagens que Senna e eu fazíamos com a história de sacanear as fotos de fãs mais atirados nos autódromos (Flavio fingia que fotografava o fã com o ídolo). E, também, do relato do encontro de Henry Ford II com nosso colega Jorge de Souza, da antiga rádio Excelsior, que fez questão de dizer ao dono da montadora que tinha um Corcel II, o que, inevitavelmente, estabelecia um vínculo entre os dois — recorda.

Ayrton Senna é homenageado por equipes e organização da Fórmula 1 em retorno de Imola

Em passagens como essas, Flavio Gomes tira a divindade dos ídolos e os transforma em pessoas comuns. Como os próprios se consideram. Ele recorda o espanto de Senna com a multidão que o recebeu após mais um título.

— O problema da idolatria é distorcer a realidade. Senna foi transformado quase num mártir no Brasil, e não era. Era um piloto de F1, que corria os riscos que corria não para redimir um povo ou uma nação. Todos os pilotos são assim. Correm para vencer, ponto.


Fonte

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo