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Inspirado em sucesso da NBA, Rally dos Sertões corta o Brasil em ‘bolha móvel’ anti-Covid

Ao longo dos últimos sete meses, desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a Covid-19 como uma pandemia, o esporte buscou alternativas para retomar as atividades. Protocolos de segurança foram criados, estratégias adotadas e falhas acumuladas. Mas um modelo se mostrou bem sucedido contra a proliferação do Sars-CoV-2: a “bolha” da NBA, com os atletas isolados em um resort na Flórida, sem contato com o mundo externo. A partir de hoje, o formato será testado no Brasil de maneira diferente: uma “bolha móvel” cortando cinco estados, além do Distrito Federal.

A edição deste ano do Rally dos Sertões — que começa nesta sexta-feira em São Paulo e vai até dia 7, quando chega em Barreirinhas (MA) — seguirá o exemplo da liga norte-americana de basquete. Devido à pandemia, as etapas da prova serão divididas por “bolhas móveis”, com testagens diárias e participantes isolados.

Como regra, as equipes terão que permanecer dentro da “bolha” durante todas as etapas. Se saírem, estarão desclassificados. As Vilas Sertões, como são chamadas, contarão com três câmeras de desinfecção e testagem PCR diárias para todas as pessoas envolvidas. Os participantes não poderão dormir nos hotéis das cidades ao longo do caminho e terão que ficar dentro dos acampamentos. Ao chegar em um novo acampamento, outro teste para Covid-19 será feito.

— Os acampamentos, ou motor-homes, são as áreas de evento onde as caravanas de cerca de 1.500 pessoas estarão em deslocamento. Ela vai ser cercada, tem controle de acesso na entrada e na saída — conta Meg Cotrin, assessora do Rally dos Sertões. — Todos os carros de apoio da equipe serão monitorados e rastreados. Haverá internet, banheiro e alimentação. Os pilotos dormirão em barracas ou colchonetes. As equipes maiores já costumam montar o seu próprio dormitório.

Inspirado em sucesso da NBA, Rally dos Sertões corta o Brasil em ‘bolha móvel’ anti-Covid
Rally dos Sertões 2020 Foto: Divulgação

Antes de dar início ao Rally dos Sertões, os pilotos e os membros das equipes tiveram que apresentar um laudo médico com o teste negativo para Covid-19. Por conta da pandemia, a organização também não divulgará as cidades por onde a competição irá passar para evitar aglomerações.

Outra novidade para esta edição é que os participantes não poderão dormir nos hotéis da cidade e terão que ficar dentro dos acampamentos. O serviço de alimentação será contratado pela organização do evento — café da manhã, lanche a tarde e janta — e todo o produto será comprado das cidades. Ao chegar em um novo acampamento, outro teste para Covid-19 será feito.

A grande novidade para a edição de 2020 é que três renomados pilotos da Stock Car terão a oportunidade de disputar o Rally dos Sertões: Rubens Barrichello, Thiago Camilo e Felipe Fraga. A 28ª edição vai largar com 63 Motos/Quadriciclos; 40 Carros, 55 UTVs; 20 Regularidade e 55 Light, a nova categoria de 2020 e 56 equipes.

Isolamento

Fazer uma prova de deslocamento será um desafio. A NBA disputou as suas fases decisivas dentro de uma “bolha”, mas em um só local: um resort da Disney, em Orlando, na Flórida, com um protocolo rígido de isolamento. De 13 de julho até o desfecho da temporada, em meados de outubro, ninguém testou positivo nos boletins divulgados. Isso a tornou a estratégia mais bem-sucedida do esporte na pandemia. Outra iniciativa em uma mesma cidade que deu certo foi a fase final da Champions League, disputada em Lisboa.

— Isolar as pessoas (com testes) negativos como se fosse uma ilha deu certo. Mas isso depende de muitos fatores, muita testagem e procedimentos. Só funciona se você tiver um isolamento bem feito, como foi com a NBA — diz o infectologista Renato Kfouri.

A NBA apoiou a livre expressão dos atletas: umas das exigência deles, para o retorno da temporada na "bolha", foi estampar a campanha pelas vidas negras em suas quadras Foto: Kim Klement / USA TODAY Sports
A NBA apoiou a livre expressão dos atletas: umas das exigência deles, para o retorno da temporada na “bolha”, foi estampar a campanha pelas vidas negras em suas quadras Foto: Kim Klement / USA TODAY Sports

Basta um simples esforço de memória para lembrar de casos onde protocolos não deram certo. No Campeonato Brasileiro, o Flamengo não foi o único clube que precisou escalar jogadores das categorias de base porque a maioria do seu elenco profissional testou positivo para Covid-19. Na NFL, também nos Estados Unidos, o Tennessee Titans e o New England Patriots tiveram seus jogos adiados devido a um surto. Também houve problemas no tênis internacional, no beisebol e no vôlei.

O futebol ainda sente o impacto do retorno. Na Europa, o temor de uma segunda onda fez com que governos adotassem medidas emergenciais. A Alemanha, um dos países que melhor controlou o vírus, terá os jogos da Bundesliga durante novembro sem torcedores — o governo havia liberado a volta. Na Itália, as partidas recebiam até mil torcedores, mas o novo decreto voltou a exigir portões fechados.

— A volta ao público no estádio foi um erro junto com outras coisas. A Europa diminuiu o isolamento e tiveram praias cheias como aqui no Brasil. Acharam que a epidemia já tinha sido controlada. Mas se você abre, flexibiliza demais, esse controle não é suficiente para evitar que o vírus volte. A abertura do estádio foi só mais um capítulo de flexibilização demasiada que foi feita — comenta o infectologista Alberto Chebabo, diretor da Divisão Médica do HUCFF.

O UFC, por exemplo, ignorou os mais de R$ 950 milhões investidos pela NBA para, entre outros motivos, o controle da entrada de pessoas e viu a ‘Ilha da Luta’, local construído pelo governo dos Emirados Árabes, em Abu Dhabi, não ser tão eficaz como prometido. A falta de isolamento prévio das delegações foi considerada um dos motivos para os testes positivos. Posteriormente, a segurança foi corrigida.

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