Esportes

João Victor Oliva é o primeiro brasileiro na Vila Olímpica em Tóquio: ‘Preferia chegar com um monte de gente’

TÓQUIO — João Victor Marcari Oliva, de 25 anos, cavaleiro da modalidade adestramento desde os 12 anos, foi o primeiro brasileiro a entrar na Vila Olímpica, na manhã desta sexta-feira, em Tóquio (por volta das 22h de quinta-feira no Brasil), após cerca de quatro horas de procedimentos no aeroporto do Japão. O atleta e também criador de cavalos, estava em Aachen, na Alemanha, onde foi feita a quarentena dos cavalos da Europa.

João Victor é único representante do adestramento do Brasil em Tóquio, onde disputa sua segunda Olimpíada. Pouco antes de chegar, ele contou ao GLOBO que não sabia que iria “abrir” a Vila dos Atletas aos brasileiros e brinca que entrou com o pé direito para dar sorte a todos:

Olimpíada:  Como a proibição da touca de natação para cabelo afro atingiu os atletas negros

— Nem sabia que seria o primeiro brasileiro a entrar na Vila e para falar a verdade não achei tão legal assim… Ficar sozinho, né? Queria chegar com um monte de gente. Mas espero passar sorte para todo mundo, já que inaugurei com o pé direito — disse o atleta, que foi recebido pelo chefe de Missão do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marco la Porta.

Além de João Victor, também estava prevista a chegada de outros 11 atletas brasileiros a Tóquio nesta quinta-feira, dos quais sete do judô, três do taekwondo e o cavaleiro.

João Victor é  filho de Hortência, campeã mundial e vice olímpica no basquete, e de José Victor, criador de cavalos e proprietário de um haras onde o garoto praticamente cresceu montando, assim como seu irmão Antônio. Ele nasceu cinco meses antes de Hortência chegar à prata olímpica em Atlanta-1996.

Avião especial

Em Tóquio, ele montará um Puro Sangue Lusitano, “Escorial”, de 12 anos, que chegou antes, na quinta-feira de manhã, em um cargueiro. Os cavalos viajam em avião especial, em contêineres próprios para os equinos. E o transporte dos cavalos de Aachen para Tóquio precisou de logística ainda mais complicada, pela distância. São poucas companhias aéreas aptas a esse serviço e, além das montarias, veterinários e tratadores viajam junto, acompanhando os animais em todo o processo.

Pandemia:  Presidente do COI diz que risco de Covid se espalhar entre os residentes é ‘zero’

— Ele tem caráter, é disponível, não tem maldade — descreveu João Victor sobre Escorial.

O conjunto não ficará no mesmo local. São os tratadores e os veterinários que se hospedam no alojamento no Centro Equestre de Tóquio, um legado dos Jogos de 1964.

 

Segundo Valdeni Soares Luz, o tratador de Escorial, o garanhão ficou um pouco estressado durante voo mas já nas primeiras horas em solo japonês estava hidratado novamente. Ele e Alexis Gonçalvez Ribeiro, veterinário da Confederação Brasileira de Hipismo, chegaram no Japão um dia antes para deixar a cocheira de Escorial pronta para a sua chegada.

João Victor e Escorial chegaram em Tóquio nesta quinta-feira. Foto: Rui Pedro Godinho/Divulgação
João Victor e Escorial chegaram em Tóquio nesta quinta-feira. Foto: Rui Pedro Godinho/Divulgação

— Foi recebido com feno, água e a cama de serragem pronta — contou Alexis, que explicou que as cocheiras olímpicas são hi tech, têm chão de borracha e climatizadas. — O principal cuidado com os animais em voos longos é com a hidratação. Ajudamos os animais com alguns incentivos, como por exemplo, misturar suco de maça à água, ou com eletrólito para desencadear a sede.

Ele diz que os cavalos gostam de rotina e que o ideal nessas viagens é manter ao máximo o que eles estão acostumados. Oferecer a mesma ração, com a mesma quantidade de cenoura, nos mesmos horários. Assim como João Victor que foi testado para Covid-19 em seu desembarque, Escorial passou pela testagem para detecção da influenza equina. O exame é similar ao PCR, com um cotonete longo introduzido na narina do animal. Já no primeiro dia, ele caminhou no picadeiro.

Tóquio:  Hotel do Brasil já tem 11 casos de Covid entre funcionários e familiares

— Escorial é um garanhão e se incomoda com outros cavalos à sua volta. Quer mostrar quem manda no local. Ao mesmo tempo, não gosta de ficar sozinho. Fica agitado quando não tem cavalos por perto. Na Alemanha, antes da viagem, colocamos um cavalo a seu lado para desestressá-lo. E aqui, no Japão, eu fico sentado na sua cocheira quando tem necessidade. Ele é dócil e gosta de carinho — comenta o tratador, que costuma dar torrões de açúcar ao cavalo como recompensa após competições e treinos.

Início da carreira

João Victor começou a montar aos três anos no rancho dos pais, em Araçoiaba da Serra, município da privilegiada região “cinturão do cavalo” no Estado de São Paulo, cerca de 130 quilômetros da Capital. Estreou nas pistas inspirado em Rogério Silva Clementino, então funcionário da coudelaria e primeiro preto a integrar uma equipe olímpica da modalidade no Brasil.

Ele foi o melhor atleta do Time Brasil de Adestramento nas Olimpíadas do Rio 2016, terminando em 46º lugar no individual com nota superior a de Sylvio Rezende, em Munique 1972 (33.º lugar). Ganhou a medalha de bronze por equipe em duas edições dos Jogos Panamericanos, Lima 2019 e Toronto 2015 e é campeão Sul-Americano individual e por equipe (Odersul/Chile 2014).

Jogos Olímpicos:  Judoca nascido no Brasil será porta-bandeira do Líbano em cerimônia de abertura

O atleta se transferiu em julho de 2014 para Möhnesee, na Alemanha, sendo orientado por Norbert van Laak, treinador de medalhistas olímpicos, mundiais e europeus, em busca de aperfeiçoamento. Passou a competir no circuito europeu com os tops mundiais da modalidade.  Por causa do cavalo que monta desde setembro passado, João Victor vive em Arruda dos Vinhos, em Portugal, onde passou a fazer parte do projeto olímpico do grupo JRME Horse Campline.

Estudioso das linhagens e da produção de animais atletas, João Victor, que desde a adolescência passou a se envolver com o programa de reprodução da Coudelaria Ilha Verde, de propriedade da sua família, assumiu no final de 2016 a responsabilidade de selecionar os animais do plantel, Lusitanos e de raças alemãs, em busca de produtos de alta performance.

— Quero aprender sempre e, com mais idade em relação à Rio-2016, carrego mais bagagem. Claro que tenho muito que melhorar, porque sou jovem, mas estou mais preparado. Hoje, tenho menos estresse, a dor de barriga vai passando.


Fonte

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Notamos que você usa um Adblock ativo!

A publicidade é uma fonte importante de financiamento do nosso site. Por favor, deslique seu Adblock para que possamos gerar receitas através dos anúncios. Não vai sair do seu bolso. ;)