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Kfouri: CBF autoriza o futebol itinerante no Brasil, enquanto Branco respira por aparelhos num hospital

Haverá um jogo do Campeonato Paulista de futebol nesta terça-feira em Volta Redonda, Rio de Janeiro. A decisão repentina — a ideia só se tornou oficial no começo da noite de ontem — escreve um novo capítulo do manual varzeano do futebol no Brasil, mas esse é um assunto menor na saga do torneio estadual que precisa, aconteça o que acontecer, seguir em andamento. Não é mais uma questão esportiva, pois a competição não tem esse valor há muito tempo. Não é nem mesmo um esforço em nome do entretenimento, como demagogos tentam argumentar. É só um compromisso comercial que deve ser cumprido sob quaisquer circunstâncias, o que evidencia 1) que se fará de tudo para seguir jogando, seja como for; e 2) que o estadual de São Paulo será apenas o primeiro a se deslocar.

Haverá quem louve a “operação” que possibilita o jogo em outro estado, algo como uma façanha logística digna de orgulho. Espere por notas e comentários elogiando a “resiliência” da FPF para salvar seu torneio. Mas existe uma importante distinção entre, por exemplo, a secretária que decide alugar um helicóptero para que um documento seja entregue numa nevasca que bloqueou estradas, e a insistência em jogar futebol durante uma catástrofe que apresentou o país como um imbecil global. A federação e os clubes de São Paulo conhecem perfeitamente essa diferença, mas ao invés de exercer a postura que se espera de entidades com tamanho poder de alcance, escolheram assumir as intenções de uma indústria desesperada para proteger o que é seu. Por desgraça, trata-se de uma indústria que só enxerga a porção saborosa de fazer parte da vida das pessoas, como se esta relação fosse um débito, não uma conquista.

O argumento de que o futebol não parou nem mesmo em países onde se fez confinamento é uma pegadinha infantil. Para efeito de combate ao vírus, que é o que se pretende, o que importa é se há confinamento ou não. No Brasil não houve e não há, e é exatamente por isso que o passaporte brasileiro hoje é um documento inútil e a situação chegou ao ponto em que a paralisação do futebol contribuiria para a conscientização de que é imperativo restringir a circulação de pessoas e recuperar a capacidade de atendimento do sistema de saúde. Quando o futebol toma providências para seguir com sua vida rotineira, a mensagem tem o significado oposto.

Até o fim da tarde de segunda-feira, os times participantes do Paulistão itinerante em Volta Redonda não tinham certeza de que os jogos aconteceriam. A estrutura de transmissão pela televisão, fundamental para que o compromisso seja entregue, não é algo que se prepara num par de horas. A tentativa da CBF de agendar partidas da Copa do Brasil para o mesmo estádio Raulino de Oliveira, entre eles o do Corinthians, na sexta-feira, confirma a decisão de jogar onde e quando for possível, independentemente do intervalo de descanso, das condições de preparação, de todos os aspectos inerentes ao esporte de alto rendimento.

É assim que o futebol dito profissional se move no Brasil, enquanto Branco, tetracampeão do mundo em 1994, funcionário da CBF, respira com ajuda de aparelhos num hospital do Rio de Janeiro.


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