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Kfouri: compreender a magnitude do Flamengo não deveria ameaçar condição de ídolo tricolor de Rogério Ceni

É deprimente a celeuma em torno da declaração de Rogério Ceni sobre trabalhar no Flamengo. Deprimente pela opção automática por fazer uma leitura gástrica, pela incapacidade de compreender que nem toda comparação é uma crítica, pela falta de interesse em observar contextos. Acima de tudo, pela irresistível necessidade de se ver profundamente ofendido por alguma coisa, o tempo todo, como se os dramas reais do mundo já não fossem suficientes. A comunidade são-paulina, legitimamente orgulhosa de Rogério, o goleiro, debate a cassação do passaporte tricolor de um dos maiores ídolos de sua história. O delito? Ceni, o técnico, disse que ser treinador do Flamengo é diferente.

A frase em questão, em entrevista ao Esporte Espetacular, é esta: “Eu trabalhei no São Paulo durante tantos anos e é um clube de massa, de presença do torcedor. Mas aqui, assim, é uma atmosfera diferente”. Ceni prossegue num raciocínio sobre “ser Flamengo” e conta como o contato direto com a representatividade do time no minuto a minuto carioca o impactou, pela novidade da experiência. A comparação se dá pelo ponto de vista de alguém que passou a vida em um tipo de ambiente — de cidade, de clube, de torcida, de repercussão — e hoje absorve uma influência distinta. E não há dúvida de que se trata de uma influência mais potente, por isso impressionante até para um homem do futebol como ele.

Ceni também menciona a “inserção social” e a “parte da cidade onde existe uma pobreza maior”, transportando a conversa para fora do território restrito ao jogo. Especialmente no contexto futebolístico atual, o tamanho do Flamengo como identidade no Rio de Janeiro supera, com enorme folga, o que é “ser São Paulo” em São Paulo. É preciso estar irredutivelmente determinado a se sentir desrespeitado para deixar de concluir que não há juízo de valor ou mesmo uma preferência explícita, apenas a ilustração do que vive e sente alguém cuja responsabilidade profissional é representar essa identidade, relacionando-a, por óbvio, com sua vivência. Nem todos, talvez, sejam aptos e estejam dispostos a essa reflexão, mas a verdadeira riqueza do futebol não está nas materialidades.

O ano de 2019 exerceu um papel importante. Evidentemente o Flamengo sempre teve massiva relevância popular, mas a temporada passada apresentou o resgate de um grande time, de sensações que remetem a “… em dezembro de 81…”, de um sorriso permanente, da certeza da vitória, do futebol encantador. Quem andou pelas ruas próximas ao Maracanã antes de um jogo na campanha da Copa Libertadores se deparou com o DNA de um movimento que é social e cultural em virtudes e defeitos. No Rio destes tempos, uma das metrópoles que mais cruelmente exibem a tragédia brasileira, o “ser Flamengo” se manifesta pujante, vibrante e orgulhoso. Esta é a atmosfera a que Ceni se referiu, uma realidade que ele não encontrou por algumas horas e deixou para trás ao entrar no avião.

Não, esta é a exigência imposta a ele diariamente, cobrada por seu próprio desejo e por quatro a cada cinco pessoas que lhe dirigem a palavra. É pequeno, sob qualquer ângulo, questionar sua condição de ídolo são-paulino por ter essa compreensão.


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