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Martín Fernandez: impossível explicar – e entender – Diego Maradona

Em 2005 saiu na Argentina um livro pequeno em tamanho e grande em peso, cujo título (aqui traduzido) entrega tudo: “Diego Disse – As mil melhores frases da carreira do 10”. Alguns anos atrás era possível encontrar exemplares nos sebos da Avenida Corrientes com um selo na capa: “Finalmente autorizado por Maradona”. Em pouco mais de cem páginas estão compiladas declarações do ex-jogador sobre tudo e sobre todos: papas e políticos, jogadores e técnicos, amigos e inimigos, amigos que viraram inimigos e vice-versa.

Maradona, 60 anos: Flamengo, Palmeiras e Santos quase fizeram o argentino jogar no Brasil

É um fabuloso passeio pela mente do personagem mais complexo da história do futebol. Um exemplo banal: no final dos anos 90, começo dos anos 2000, Maradona elegeu uma série de herdeiros dele próprio na seleção. “Aimar é meu sucessor”. “Saviola caminha no ar”. “A 10 da seleção tem que ser de Ortega”. “D’Alessandro é o mais parecido a mim”. “Gallardo pode nos guiar com a 10 da seleção”. “Tevez é o melhor”. Tudo isso para depois arrematar: “É odioso que comparem os garotos comigo”.

Há todo um capítulo dedicado a Pelé, claro. Um mês antes da Copa do Mundo de 1986, Maradona afirmou que “Pelé só há um, e todos os demais estamos num segundo nível”. Um mês depois de ter feito tudo o que fez na Copa do México, manteve o tom: “Agradeço os elogios. Mas certas comparações, como as que fizeram com Pelé, me parecem exageradas”. A partir dali o Rei se tornaria um alvo constante dos disparos de Diego, que nem por isso deixou de mandar uma simpática mensagem pelo aniversário de 80 anos de Pelé na semana passada – retribuída ontem, quando Maradona completou 60 anos.

Também estão lá ótimas frases que outros disseram sobre Maradona. A mais saborosa é uma de Pelé, proferida em 1979, logo depois que o jovem Diego anotou um gol de mão pelo Argentinos Juniors contra o Vélez. Disse o Rei sete anos antes de o mundo conhecer La Mano de Dios: “Quer dizer que você fez um gol com a mão? Não se preocupe, este é um problema dos árbitros”.

A máquina maradoniana de disparar frases de efeito nunca foi desligada. Nos últimos 15 anos Maradona foi apresentador de TV (no qual recebeu de Pelé a Fidel Castro) dirigiu a seleção argentina na Copa do Mundo de 2010, perambulou por Oriente Médio e México, virou garoto-propaganda do regime chavista na Venezuela, se aproximou e rompeu com a Fifa e finalmente se aquietou como técnico do modesto Gimnasia y Esgrima La Plata.

São incontáveis os livros e documentários sobre Diego. Todas têm seus méritos, mas nenhuma dessas obras consegue explicar o que foi, o que é Maradona. Provavelmente porque é impossível. A melhor definição disponível sobre o agora sessentão veio de Ernesto Cherquis Bialo, um dos autores de “Yo Soy el Diego de la Gente” (2001), biografia infelizmente não lançada no Brasil.

“Há muitos Maradonas. Há um que jogou futebol, um que alcançou a celebridade. Um filho que morreu quando morreram seus pais, há um pai que se reinventa a cada dia. Há um amigo que vai trocando as amizades. Há um abjeto e um fenomenal. Barro e estrelas, torneiras de ouro e latrinas. Maradona é a soma de tudo isso num só homem. Um gênio e uma maravilha”.

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