Política

Milícias cobram pedágio ou impedem campanhas de candidatos no Rio


“Vou dar uma volta, e se, quando eu retornar, vocês ainda estiverem aqui, vai dar ruim.” Esta é uma das tantas ameaças ouvidas por candidatos e militantes do PSOL na Zona Oeste do Rio de Janeiro, região controlada pelas milícias. Acostumados a cobrar taxas por “serviços” que vão da segurança à autorização de funcionamento do comércio, os milicianos descobriram uma nova forma de ganhar dinheiro e de influenciar nas eleições municipais.

 

 

Quando não cobram pedágio de quem pretende fazer campanha nas áreas sob sua influência, os criminosos simplesmente proíbem a circulação dos “adversários” ou protegem seus pupilos. A intimidação e a violência tentam influenciar o voto das populações subjugadas, segundo dados do Disque Denúncia e investigações da Polícia Civil no estado.

Prática antiga na região, sobretudo nas cidades da Baixada Fluminense, como Nova Iguaçu, Duque de Caxias e Itaguaí, a intimidação eleitoral miliciana chama a atenção de Renato Souza, candidata à prefeitura pelo PSOL, pelo alcance inédito. “Nossa militância tem sido ameaçada enquanto fazem ações nas estações do BRT na Zona Oeste. Veja bem: as estações estão no asfalto, não nas favelas, o que mostra o poder crescente desses grupos”.

Segundo o Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro, levantamento recente com base em notificações do Disque Denúncia do ano passado, mais da metade da área da capital, ou 57%, habitada por 2 milhões de cariocas, está sob a influência de milícias. Na Baixada, os bairros nos quais os grupos milicianos estão presentes, de acordo com a mesma pesquisa, abrigam aproximadamente 500 mil eleitores, número que tende a ser bem maior quando se consideram as áreas dominadas pelo tráfico ou em disputa pelas facções.

Neste ano, a Polícia Civil investiga ao menos dez candidatos suspeitos de participação nas milícias. Em Nova Iguaçu, dois candidatos a vereador foram assassinados em emboscadas neste ano, Domingos Barbosa Cabral, irmão de André Barbosa Cabral, sargento da Polícia Militar apontado pelo Ministério Público estadual como chefe da milícia na região. Em Belfort Roxo, o candidato a vereador Márcio Cardoso Pagniez, ex-presidente da Câmara Municipal, está preso por acusação de chefiar um grupo miliciano, o que não o impede de continuar em campanha.

As notificações, em alta, segundo o Disque Denúncia, descrevem o comportamento dos milicianos nas regiões dominadas. Além da cobrança de “pedágio” à proibição completa de campanhas – com exceção dos seus próprios candidatos –, constam ameaças do aumento da extorsão dos moradores em caso de derrota eleitoral dos milicianos ou a convocação de eleitores para “reuniões” em que seus dados eleitorais são anotados, com intuito de intimidação. As denúncias motivaram a criação de uma força-tarefa da Polícia Civil para investigar e coibir os crimes eleitorais executados pela milícia. Em dois confrontos recentes em Itaguaí, morreram 17 envolvidos, número elevado até para os altos índices de homicídios neste tipo de operação.

Chefe de gabinete de Marielle Franco, assassinada em 2018, Renata Souza afirma que, por segurança, não tem divulgado com antecedência suas agendas de campanha na Zona Oeste, como aquelas que realizou em Campo Grande e Bangu. À frente de campanhas como a de Marcelo Freixo à prefeitura em 2016, a agora candidata explica ter visto mudança com o passar dos anos: “Antes havia certo alarde com nossa presença em determinado lugar, o que nos dava uma sensação de segurança, mas não podemos mais contar com isso”.

Integrante do movimento Favelação e há décadas líder comunitário, Jaime Muniz é por vezes responsável pela ponte entre a agenda da também candidata à prefeitura Benedita da Silva, do PT, e as comunidades. Nesta eleição, Muniz afirma que tem preferido evitar o contato com favelas onde a equipe é avisada com antecedência sobre a “orientação” do local. “Há lugares que nos dizem que estão ‘fechados com fulano’, o que nos faz evitá-los quando vamos fazer nosso trabalho”, relata.

Baseado no histórico em campanhas e no movimento comunitário, ele faz um balanço semelhante ao de especialistas em segurança pública a respeito da ampliação da interferência miliciana nas eleições: o poder territorial, conquistado nos últimos anos, quer se refletir com mais frequência na esfera pública, o que motiva as candidaturas próprias ou o apadrinhamento de candidatos que os apoiam. Não há limites para as intimidações, diz Muniz. “Ouvi relatos de que os milicianos obrigam a tirar foto da urna, para confirmar o voto de cabresto.”

No caso da campanha de Benedita da Silva, analisa, a história da candidata reduz as ameaças. Segundo ele, não há registros de intimidação até o momento. Procuradas, outras campanhas não informaram se foram assediadas ou não.

Há poucos dias das eleições, a expectativa nas regiões controladas pela milícia é de que as tentativas de influenciar as urnas aconteçam até no domingo 15, dia da votação. Imagina-se que os criminosos monitorem os eleitores. “É um problema do conhecimento de todos”, diz Renata Souza. Pergunta: por que ninguém faz nada?

 

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