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Opinião | Caso Karol Conká expõe fragilidades da cultura do cancelamento

Após meses de certa especulação, a Globo confirmou neste domingo (11) que vai lançar uma série documental sobre a vida da rapper e ex-BBB Karol Conká. A participante, que deixou o confinamento com rejeição recorde de 99,17%, terá sua história contada em ‘A Vida Depois do Tombo’, que estreia no Globoplay no dia 29 deste mês. Na internet, é claro, as críticas já começaram e as opiniões se dividem. Afinal, a tão falada Cultura do Cancelamento existe ou não existe?

O termo “cancelamento” se traduz basicamente como uma depreciação pública de uma figura após uma atitude ou declaração problemática ou negativa. Apesar de já ter sido usado outras vezes neste sentido, muitos estudiosos acreditam que o seu emprego atual foi popularizado após um episódio do reality ‘Love & Hip Hop: New York’, de 2014, e inicialmente era usado de forma irônica para demonstrar discordância. Com o movimento #MeToo, seu uso cresceu e se dividiu. Hoje, há os detratores, que creditam ao cancelamento todo o mal da humanidade, e os céticos, que afirmam que nada disso existe. Qual está certo e qual está errado, então?

É importante entendermos que o cancelamento engloba três comportamentos coletivos diferentes. Alguns são válidos, outros nem tanto, e é justamente dessa bagunça que saem tantas contradições nesta discussão. 

1. O boicote

O boicote é, em termos práticos, uma resposta financeira, uma forma de deixar o descontentamento claro, atingindo a figura pública onde mais dói: no bolso. É deixar de consumir, seguir ou apoiar determinada pessoa por não concordar com suas atitudes.

Após as declarações transfóbicas de J.K. Rowling, por exemplo, fãs de Harry Potter clamaram para que as pessoas parassem de comprar livros ou apoiar os novos projetos da saga, justamente para deixar claro que se tratava de uma retaliação às falas preconceituosas. A demissão de Gina Carano de ‘The Mandalorian’, após uma publicação no Instagram associando o “tratamento sofrido pela Direita” nos Estados Unidos ao “início do Holocausto” também é um exemplo. 

2. O linchamento virtual

O problema começa justamente quando o boicote vem acompanhado de uma certa humilhação pública que coloca no mesmo patamar comportamentos completamente diferentes. Neste contexto, é comum ver tuítes infelizes ou declarações isoladas receberem o mesmo tratamento de casos de assédio condenados pela justiça. Algumas vezes, basta uma publicação ou fala incorreta para que toda uma história ou carreira seja reduzida a um único fato e pedidos de desculpas se tornarem insignificantes.

Mas a humilhação pública não começou com a internet. O julgamento das bruxas de Salém em 1693 e a história do livro ‘A Letra Escarlate’, de 1850, nada mais são que casos de linchamento — e definitivamente a internet não teve relação alguma com estes acontecimentos.

Aproveite para assistir:

A diferença é que, pela primeira vez, isso pode ser usado contra pessoas famosas e poderosas, e por isso ele nunca esteve tão em evidência. 

3. A crítica

Você provavelmente já leu em algum lugar, mais de uma vez, algum famoso dizendo que está sendo vítima de “caça às bruxas” quando, na verdade, tudo o que as pessoas estão fazendo é apontar um comportamento contraditório. Por exemplo, o público do BBB21 apontou que Marília Mendonça e Rafa Kalimann, ferrenhas defensoras das rejeições de Nego Di e Karol Conká, mantiveram o silêncio quando Rodolffo, amigo da primeira e ex-marido da segunda, estava no Paredão e no alvo de críticas por comportamentos que reproduziam machismo e homofobia. 

A cantora justificou seu silêncio dizendo que tinha mais o que fazer, e aproveitou o ensejo para criticar a Cultura do Cancelamento, da qual disse ser alvo por não ter se posicionado sobre o Paredão. Kalimann preferiu deixar o assunto passar.

Ainda que a cobrança e algumas associações pudessem ter sido desproporcionais, a mudança de postura observada pelas pessoas era apenas uma constatação. O fato de Marília Mendonça recorrer ao fantasma do cancelamento (algo mais comum do que se imagina) para se reposicionar como vítima só deixa claro o quanto seguimos despreparados para este debate. 

Misturar tudo é problema

O grande problema de se tratar a Cultura do Cancelamento como um bicho de sete cabeças é dar a ela um poder que ela não tem. Na maioria dos casos, o cancelamento é uma fase transitória da vida pública, justamente porque esse escrutínio, embora muitas vezes nocivo, sempre existiu — ele apenas muda de forma.

Olhando de maneira prática, é de total interesse da Globo ajudar a dissipar a visão negativa sobre a curitibana após o BBB. Afinal, ela foi uma das convidadas do Camarote e, se o programa tiver uma consequência ruim para sua carreira, isso complica a seleção das próximas edições. Além disso, Conká mantém um contato profissional com a casa há alguns anos. Já apresentou o ‘Superbonita’ no GNT, e antes do confinamento comandava o ‘Prazer, feminino’ ao lado de Marcela Mc Gowan no YouTube do canal — o programa teve sua exibição na TV cancelada justamente por causa das polêmicas no reality.

Aliás, a própria presença de Marcela no hall de apresentadoras do GNT reforça o quanto o cancelamento é transitório, tendo em vista todas as críticas que a ginecologista recebeu durante a sua participação no BBB20. E isso não é um problema.

Mas é justamente por isso que deve haver cautela quando falamos de cancelamento, porque o termo é usado da mesma maneira para questões que são completamente diferentes.

Atitudes execráveis, como machismo, racismo e homofobia, devem ser tratadas como tal, debatidas e condenadas. Casos como os “cancelamentos” de Harvey Weinstein e Kevin Spacey são maiores do que isso, pois envolvem investigações e julgamentos. Mas também é importante entender que a guilhotina do cancelamento tem pesos diferentes para pessoas com níveis de influência diferentes — e os artistas raramente são as pessoas do lado mais fraco desta corda. 

No caso de Karol Conká, é inevitável voltar à questão de “separar a arte do artista”. Sob uma ótica mais ampla, existe uma diferença entre apoiar ou não apoiar o que alguém como Roman Polanski faz agora enquanto cineasta ou apreciar o que ele fez no passado e deixou uma marca importante para a evolução do Cinema? Existe uma diferença entre cobrar atitudes de pessoas públicas do presente e aplicar os mesmos padrões a artistas que viveram nas décadas de 50 ou 60?

Para algumas pessoas, existe. Para outras, não. Nada disso está escrito em pedra, porque a ligação emocional entre público e obra gera uma quebra de expectativas que é sentida de formas diferentes. Pense nos fãs de Harry Potter que cresceram com o bruxinho se decepcionando com JK Rowling, ou fãs das músicas de Karol Conká tendo um choque ao ver seu comportamento na casa. Nos dois casos, há quem não consiga continuar consumindo e há quem não sinta problema algum, e isso é completamente subjetivo.

Em linhas gerais, portanto, quando se diz que o cancelamento não existe, é justamente porque a ideia de uma condenação eterna e indelével esbravejada por artistas que são alvo de críticas, muitas vezes, não passa de um mito que impossibilita qualquer debate aprofundado e enriquecedor sobre erros e acertos. Quanto ao documentário ‘A Vida Depois do Tombo’, não é possível julgar antes de assistir. Que seja honesto.

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