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Quem foi Orlando Pingo de Ouro, o ‘rei das bicicletas’ superado por Fred entre maiores artilheiros do Fluminense

Orlando Pingo de Ouro teve o mundo aos seus pés. Franzino, de baixa estatura e atuando ao lado de craques como Castilho, Didi e Telê Santana, tinha tudo para não dar certo em um futebol extremamente físico, mas liderou o Fluminense à conquista da Copa Rio de 1952 — título que o clube considera equivalente ao Mundial de Clubes. Mesmo tendo sido superado por Fred na lista de maiores artilheiros, o pernambucano não tem a sua história diminuída.

‘Pingo de Ouro’, como conta o apelido, era o segundo maior goleador da história tricolor com 184 tentos. Não é absurdo que o torcedor mais jovem não tenha tantas memórias. Orlando atuou no Fluminense entre 1945 e 1954, e O GLOBO resgata a carreira e a última entrevista que se tem registro do craque, concedida à Rádio Capital, em 1984, recuperado pelo site ‘Historiadores do Esporte’.

“Num jogo entre Fluminense e Bonsucesso, vencemos por 5 a 2 e eu fiz quatro gols. A tarde era chuvosa e no dia seguinte o José de Araújo escreveu no jornal que o Fluminense goleou e Orlando foi o “Pingo de Ouro”, porque eu parecia um pingo d’água em todo o gramado e tinha sido de um brilhantismo invulgar, que brilhava como se fosse ouro”, declarou.

Quem foi Orlando Pingo de Ouro, o ‘rei das bicicletas’ superado por Fred entre maiores artilheiros do Fluminense Foto: Arquivo Flu-Memória

De Recife para o Rio

Orlando iniciou a carreira de jogador de futebol influenciado por seus quatro irmãos, mas foi Tará, o mais velho e um dos maiores jogadores de todos os tempos no futebol pernambucano, quem mais o motivou a seguir o caminho.

Curiosamente, seu pai não queria os filhos fossem atletas, mas não conseguiu convencê-los. Orlando, o mais novo, deu seus primeiros passos no juvenil do Náutico, em 1941, e conquistou dois títulos estaduais pelo clube tendo apenas 16 anos. Convocado para a seleção pernambucana, atraiu olhares dos grandes clubes da época — incluindo o Fluminense.

Mesmo nascido em Recife, Orlando era torcedor do Fluminense devido a influência televisa. Tanto que apenas renovou contrato com o Náutico se fosse incluído uma cláusula que facilitasse qualquer futura transação, mesmo o clube pernambucano não querendo liberá-lo.

“Naquela época, que não tinha televisão, nós tínhamos os jogadores do Rio e de São Paulo como verdadeiros ídolos. Pessoas que estavam num plano muito superior, mesmo inatingível. Tínhamos verdadeira loucura e ouvíamos os jogos pelo rádio de São Paulo e, principalmente, do Rio. Eu era Fluminense e fã do Tim e do Romeu e sonhava jogar no Rio pelo Fluminense”, comentou Orlando.

Quem foi Orlando Pingo de Ouro, o 'rei das bicicletas' superado por Fred entre maiores artilheiros do Fluminense Foto: Reprodução/Historiadores do Esporte
Quem foi Orlando Pingo de Ouro, o ‘rei das bicicletas’ superado por Fred entre maiores artilheiros do Fluminense Foto: Reprodução/Historiadores do Esporte

Neto Campelo Júnior, presidente do Náutico à época, chegou a oferecer Orlando ao Botafogo, que o recursou pelo seu porte físico. A ida para o Fluminense, que parecia encaminhada, também quase melou quando Orlando sofreu uma grave lesão no joelho, mas o Tricolor decidiu seguir com a contratação após levar uma junta médica para Recife para avaliá-lo. De contrato assinado, seguiu o seu sonho.

A bicicleta histórica e o ‘timinho’

Em 1946, Orlando venceu seu primeiro título pelo Fluminense no que ficou conhecido como “Supercampeonato carioca”. A linha de frente daquela equipe era formada por Pedro Amorim, Ademir Menezes, Simões, Orlando e Rodrigues, que fez o tricolor marcar 97 gols em 24 jogos. Além disso, uma das temporadas mais marcantes foi quando se tornou o ‘rei das bicicletas’.

Em 1948, o Fluminense de Orlando venceu o ‘Expressinho’ do Vasco, considerada a melhor equipe da história do clube cruz-maltino. Mas a maneira como marcou o gol da vitória chamou a atenção: de bicicleta, uma raridade na época, que aconteceu  na terceira partida decisiva do Torneio Municipal e valeu o título.

Orlando Pingo de Ouro Foto: Arquivo/Flu-Memória
Orlando Pingo de Ouro Foto: Arquivo/Flu-Memória

Outra passagem marcante foi no chamado ‘timinho’, que tinha esse apelido devido a provocação dos rivais. Ao lado Castilho, Píndaro, Pinheiro e Telê, aquela equipe se notabilizou por vencer muitos jogos por 1 a 0 e ter um estilo bastante defensivo.

“Foi Zezé que esquematizou o time. O time era defensivo, tanto que nós quase sempre ganhávamos de 1 a 0. O ponta adversário pegava a bola, nosso beque já recuava, o meio de campo fechava o funil e restava ao adversário centrar a bola. Aí nós tínhamos Castilho fabuloso. Pinheiro muito alto e os ataques morriam ali”, salientou.

Quem foi Orlando Pingo de Ouro, o 'rei das bicicletas' superado por Fred entre maiores artilheiros do Fluminense Foto: Reprodução/Historiadores do Esporte
Quem foi Orlando Pingo de Ouro, o ‘rei das bicicletas’ superado por Fred entre maiores artilheiros do Fluminense Foto: Reprodução/Historiadores do Esporte

Orlando não disputou a Copa do Mundo de 1950, no Brasil, por ser franzino. Na época, acreditava-se que se venceria o Mundial tendo jogadores mais fortes e altos. O atleta do Fluminense chegou a ser convocado para amistosos preparatórios, mas acabou cortado antes mesmo de treinar.

O “Timinho” conquistou o Campeonato Carioca em 1951, o primeiro título do Fluminense na era Maracanã, e seria base da Copa Rio de 1952. Orlando foi destaque no Mundial com cinco gols em sete partidas. Em 1953, deixaria as Laranjeiras rumo ao Santos.

“Eu não queria, mas o Santos me ofereceu 30 mil cruzeiros. Era muito dinheiro. Fui para o Santos, mas não joguei bem. Me machuquei muito. Depois eu fui para o Atlético-MG, recebendo muito menos. Já fui pensando em negócios imobiliários”, completou.

Orlando faleceu no dia 5 de agosto de 2004, e até o final de sua vida frequentou as Laranjeiras.


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