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Tamara Press, a soviética tricampeã olímpica que teve seu gênero questionado, morre aos 83 anos

Tamara Press, uma lançadora de peso soviética dominante que ganhou três medalhas de ouro olímpicas na década de 1960, mas que era o foco de especulação sobre seu gênero por causa de seu físico, morreu em 26 de abril. Ela tinha 83 anos.  

Sua morte foi anunciada pelo Ministério do Esporte da Rússia, que não especificou onde foi a morte, tampouco citou a causa. 

Press, que tinha 1,80 m e 102 quilos, começou a chamar atenção internacional em 1958, quando conquistou a medalha de ouro no disco e o bronze no arremesso de peso no Campeonato Europeu de Atletismo em Estocolmo. 

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E o sucesso só continuou. Nos Jogos Olímpicos de Verão de 1960, em Roma, ela ganhou uma medalha de ouro no arremesso de peso e uma medalha de prata no disco. Quatro anos depois, nos Jogos Olímpicos de Verão em Tóquio, ela estabeleceu recordes olímpicos ao levar o ouro em ambos os eventos.  

Porém, Press e sua irmã Irina – que ganhou medalhas de ouro nos 80 metros com barreiras em Roma e no pentatlo em Tóquio – receberam mais do que glória em suas carreiras atléticas.    

Elas ouviram insultos cruéis sobre seus tamanhos, alguns deles de jornalistas esportivos que compararam Tamara a uma dupla de zaga. Ela e Irina às vezes eram chamadas de “Irmãos Press”.

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“Eu sou uma campeã, mas você pode ver que sou uma mulher”, declarou Tamara Press à Associated Press, em 1964. “O fato de uma garota ser uma atleta não tem nada a ver com feminilidade.” 

Sete décadas depois, um debate duvidoso continua no atletismo sobre a elegibilidade de atletas intersexuais – aqueles nascidos com características sexuais que não estão de acordo com as descrições binárias de homem e mulher.   

Caster Semenya, bicampeã olímpica nos 800 metros, tem desafiado, até então sem sucesso, as regras do Atletismo Mundial e do órgão regulador do atletismo. Essas regras exigem que os atletas intersexuais que se identificam como mulheres suprimam seus níveis naturais de testosterona abaixo dos percentuais dos homens antes de poderem competir em corridas femininas de 400 metros a 2 quilômetros.  

A World Athletics reconheceu que as restrições são discriminatórias, mas, ainda assim, diz que elas são necessárias para oferecer igualdade de condições durante a competição. Críticos, incluindo a Associação Médica Mundial e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, consideram as regras desnecessárias e humilhantes.

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Em 1966, quando Press tinha 29 anos, sua carreira (assim como a da irmã) chegou ao fim quase que por inteira, quando elas decidiram se retirar do Campeonato Europeu de Atletismo em Budapeste.  

Não está claro por que Press decidiu se retirar. Se ela tivesse tomado esteroides ou anabolizantes para ganhar força, resistência e volume, poderia até ter levantado suspeitas, mas enfrentaria enfrentado pouco risco de ser detectada, porque a testagem para doping estava no início naquela época.  

Se ela fosse intersexual, Press poderia ter temido fracassar em um novo teste instituído nos campeonatos de atletismo: o chamado desfile de nus, que exigia que mulheres atletas comparecessem a um júri médico que determinaria sua elegibilidade. 

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“Havia algo diferente nas irmãs Press”, disse John Hoberman, historiador do doping no esporte e autor de “Testosterone Dreams: Rejuvenation, Aphrodisia, Doping” (2005). Ele acrescentou que “não estava fora de questão” que ambas as coisas eram verdade – que as irmãs eram intersexuais e que também usavam esteroides.  

Tudo o que as autoridades soviéticas diriam sobre a ausência das irmãs na reunião é que elas tiveram que ficar em casa para cuidar da mãe doente.  

Tamara Natanovna Press nasceu em 10 de maio de 1937, em Kharkov, Ucrânia, e viveu lá até a família ser evacuada para Samarcanda, Uzbequistão, no início da Segunda Guerra Mundial. Seu pai estava no exército soviético e morreu em batalha em 1942. Aos 18 anos, Tamara mudou-se para Leningrado (hoje, São Petersburgo) para treinar com Viktor Aleksyev, um renomado treinador de atletismo.  

De 1959 a 1965, ela estabeleceu 11 recordes mundiais, incluindo seus melhores recordes: 18,59 metros (ou 60,9 pés) no arremesso de peso e 59,70 metros (195,9 pés) no disco.

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Após a decisão das irmãs Press de não competir em Budapeste, Tamara Press permaneceu ativa até 1967. Em uma de suas últimas competições – o Moskow Spartakiad, um evento totalmente soviético que não exigia teste de gênero – ela venceu o arremesso de peso. E se aposentou naquele ano.   

Nos anos depois que parou de competir, Press atuou como engenheira e treinadora. Em 1996, trabalhou para ajudar a reeleger Boris Yeltsin como presidente da Rússia. Ela também foi vice-presidente do Fundo de Cultura Física e Saúde, uma instituição de caridade que ajuda atletas russos promissores, e autora de vários livros, incluindo “The Price of Victory”. 

Em 2012, o presidente Vladimir Putin desejou pela imprensa um feliz aniversário de 75 anos, dizendo em um comunicado: “Você conquistou o respeito dos oponentes e o amor de milhões de fãs”.

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Em 1996, enquanto as Olimpíadas de verão estavam ocorrendo em Atlanta, Press disse ao The Christian Science Monitor que seu sucesso nos Jogos de 1960 e 1964 “foi uma vitória para nosso país”, acrescentando: “Comunismo – essa é outra questão”. 

E ela lembrou que estava tão focada nas Olimpíadas de Tóquio que, em algum momento, não percebeu que um de seus competidores havia atirado em sua coxa.  

“Havia tanta tensão que eu nem percebi”, disse ela. “Depois da competição, vi uma marca preta na minha perna e pensei:‘O que é isso? ’”.


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